Enduro da Independência 2001
                                                        por Claudinei J. Silva


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       Saí na quarta feira à tarde e a noite já estava em Paraty-RJ. Arranjei um hotelzinho e fui fazer os procedimentos de inspeção na moto e pegar o material com a Organizaçao do Evento. À noite teve a largada promocional, na qual aceleramos as 500 motos juntas e passseamos pelas bonitas ruas de Paraty. Foi emocionante sentir a adrenalina, o barulho ensurdecedor, a energia da galera toda...
      No outro dia, logo cedo, partimos para o primeiro dia de prova, com trajeto: Paraty- Cunha-Aparecida do Norte-Itajubá-São Lourenço. Logo de início, dois acidentes espetaculares: Num deles, a 200 mts da largada, o piloto acelerou demais e a roda traseira pensou ser a dianteira e bateu no barranco numa curva. Saiu de ambulância... acabava ali, logo no início, a aventura deste colega. No outro, uma equipe de reportagem, num Palio, dirigido pela reporter, capotou o carro em Plena Serra de Cunha. O carro parou a 1 metro de um penhasco. Os passageiros saíram lentamente para o carro
não despencar, coisa de cinema.
      Em termos de prova, para mim, não aconteceu nada espetacular. Atravessamos rios, muita mata em Cunha, muitos morros e areia em Aparecida e trilhas em Itajubá. Deslocamo-nos até São Lourenco de carro. À noite, enquanto os mecânicos de apoio faziam a manutenção da moto, corri as ruas da cidade experimentando a famosa cachaça de Minas. Muito boa mesmo. Tomei um de banana que era fenomenal.
      Segundo dia comecou com estresse, havíamos deixado alguns ajustes para o dia seguinte, demoramos um pouco para sair e quase chegamos atrasados. Verifiquei a minha colocação do dia anterior: 52. Achei estranho pois tinha certeza de ter andado bem; descobri que tomei uma penalização de 1800 pontos em algum lugar da prova, por perder um PC. Erro básico! Não adianta chorar ! Bom, agora a Ines é morta e vamos para frente.
      Saí e, desta vez, tomando mais cuidado com os PCs. Andei o dia inteiro por belas cidadezinhas de Minas, muita poeira, muitos buracos, mata burros e, em cada lugar, uma festa para a nossa chegada. As praças cheias, as crianças acenando, etc... Fazíamos pequenas paradas nestas cidades para abastecer a moto, tomar Gatorade e comer uma fruta (devo ficar um mês sem ver uma bebida isotonica). A vida dos meus apoios tambem não era fácil, tinham que levar gasolina para mim e para o outro piloto e, após cada relargada, tinham que voar para a outra cidade e chegar antes de nós.  Enquanto íamos pelas trilhas, eles iam pelas estradas.
      Neste dia ocorreram alguns contratempos que acabaram afetando o ânimo da equipe: Como as paradas eram muito rápidas (15 a 20 minutos), tínhamos que trabalhar como um Pit Stop de Fórmula um. Em um destes, nos atrapalhamos e acabamos saindo atrasados (eu e o Celso) e perdemos pontos valiosos. Final do segundo dia: a certeza de que a prova era mais dura do que previmos !
      Chegada em Sao João del Rey à noitinha, a cidade tomada pelos turistas, e cadê vaga nos Hoteis ? O que fazer ? Difícil foi convencer a dona do Motel que nós, 4 rapazes, todos sujos de graxa e poeira, não éramos "rapazes alegres", e sim competidores do Independência e muito machos. Pegamos dois quartos de Motel e transformamos uma das garagem em oficina. Imaginem só a cara das pessoas que entravam no motel e deparavam com esta cena insólita. Motos desmontadas, peças para tudo quanto era lado, barulho de ferramentas. Para piorar a situação, avariei a roda traseira da moto (amassou e quebrou o rolamento, havíamos levado um reserva, mas estava errado, que falta de sorte!), quebrou tambem o meu "roll book" e o Celso, o outro piloto, machucou o ombro numa queda espetacular (caiu num "mata burro", doravante chamado por nós de "aleija burro"), sorte não haver "mata corno" no trajeto, senão não chegava quase ninguém ! Andamos à noite na cidade atrás do representante do Rool Book (Cebola). Ele, muito solicito e cansado, montou as engrenagens do meu equipamento entre uma pestanejada e outra. 23:00 hs, Rool book funcionando. Quase não acreditei ! Mas como nem tudo é perfeito, não tive a mesma sorte com o rolamento da roda, tivemos que montá-la com o mesmo rolamento avariado e seguir em frente. Mais do que a roda, o moral da equipe estava avariada. Vários erros no dia, desde os atrasos até as peças erradas. Fizemos uma reunião na garagem do Motel entre os gemidos dos quartos vizinhos. Discutimos os pontos falhos do dia, definimos alguns procedimentos básicos para os próximos dias: Piloto teria que, primeiro, ajudar nos Pit Stops e só depois se alimentar. Além disto, definimos que cada um dos apoios deveria fixar-se em uma moto e concentrar-se somente naquele serviço. Os serviços deveriam ser distribuidos previamente e harmoniosamente de forma a agilizar a atuação dos nossos apoios. Outra coisa que marcou bastante foi um a situação ocorrida no mesmo dia, nal qual um outro piloto pediu uma ferramenta emprestada e havíamos parado o serviço para atende-lo, ou seja, estavamos trabalhando errado !!
      Terceiro dia, sabíamos que seria o dia mais longo (aprox 11 h de corrida), o cansaço começando a falar mais alto. Verifiquei a classificação do dia anterior: 48 lugar. Um dos putos dos PCs não havia marcado a minha passagem, sabia até qual foi. Um com cara de sonso que estava de cabeca baixa. Saímos de São João del Rey, rumo à Mariana, passando por valetões de erosões e muito barro na saída da cidade. Na parte superior das valetas ficavam centenas de pessoas da cidade, acompanhando o flagelo dos enduristas. Não sei porque lembrei-me do filme "Gladiadores" !!! Quem caía, enroscava ou "roiava" (roiar é um verbo mineiro usado quando alguém trava a trilha e vem do substantivo "rolha, da para acreditar?), tomava uma sonora vaia de incentivo... incentivo a abandonar a prova e voltar para casa. A molecada era a mais satânica, xingavam, zombavam e davam gargalhadas com a desgraça dos outros. "Como são puras estas criancas", pensei. Só faltavam jogar pedras nos infelizes que encontarvam alguma dificuldade.
      Por sorte, subi entre barro e as pedras, arrancando pedaços do barranco e mandando pedra para tudo quanto é lado. Atravessei muitas trilhas, rios, morros e equivalentes. Estava andando bem, tudo correndo normal - até então não havia tido nem um único tombinho na competição! - Quando, de repente, a roda dianteira travou e senti o sabor da terra das Gerais. Não entedi nada! Cair num barranquinho "normal" de 2 metros, naquela altura da prova, era muito estranho. Fui verificar a moto e descobri o problema: o cabo do navegador enroscou no cabo do freio e travou o disco de freio. Retirei o cabo e o freio voltou ao normal, mas havia acabado de perder o Navegador em pleno sertão, sem uma única alma viva (nem mesmo um calango para me fazer companhia). Que fazer ? A única solução era mochilar alguém, ou seja, acompanhar outro corredor e torcer para que ele estivesse navegando corretamente. Enquanto devaneava, passou um piloto com uma KTM a uns 100 Km/h, liguei a moto o mais rápido possivel e corri atrás dele. Me guiava pela poeira que ele deixava. De repende, perdi-o de vista. Parei, desliguei a moto e ouvi de onde vinha o barulho. Segui-o novamente. Andei uns 20 minutos na cola dele e deparamo-nos com uma montanha enorme constituida de um material estranho. Formações rochosas escuras, pontiagudas e muito, muito lisas. A altura da montanha desanimava, muito alta e íngreme. Pensei ser mais adequada para alpinistas do que para motociclistas. KTM na frente eu atrás, KTM para a direita e eu para a direita, KTM para a esquerda e eu para esquerda, KTM escorregando e caindo morro abaixo... (tomou um tombo fantástico ao subir o morro do sabão - nome que eu dei) Não pensei 2 vezes, verifiquei se o piloto estava bem, acelerei tudo o que podia e fui subindo, metro a metro, pedra a pedra até chegar ao cume da montanha; pareceu uma eternidade. Chegando lá, mais perto do céu, fui acomedido de sentimentos confusos. Eentia-me feliz por ter conseguido subir, preocupado por ter que descer e triste por ter que deixar aquele lugar maravilhoso, com uma vista maravilhosa do vale de cores e texturas nunca por mim vistas e por não saber quando teria outra oportunidade de revê-la. Tomei um grande gole de ar, outro de água, acelerei fundo e desci em direção a uma trilha donde viam marcas de pneus. Encontrei outras motos e continuei mochilando mais uns 40 minutos. Foi uma experiência interessante pois, como estava impossibilitado de navegar, podia me concentrar em acompanhar as motos à minha frente e observar melhor a paisagem ao meu redor, coisa que dificilmente fazemos quando estamos navegando.
      Cheguei no Neutro e meu querido apoio estava lá me aguardando. Equipe porreta! Falei-lhes do problema e eles rapidamente se posicionaram em arrumar a moto. Em alguns segundos estava nas mãos do Gil um sensor reserva. Testamos o sensor, nada feito. Alguns segundos depois surgia um TOTEM (navegador) completo nas maos do Jair, pronto para entrar em ação. Testamos o primeiro TOTEM novamente e funcionou, faltavam 5 minutos para a relargada. 4 minutos o Gil montando o sensor, 3 minutos, o Gil fixando o sensor e o Jair colocando a planilha do trecho seguinte, 2 minutos, apertando tudo, 1 minuto, tudo funcionando! Saí correndo, tentando me localizar na planilha, passei por outra moto em movimento olhei no navagador e li trecho 152, digitei o número no meu navegador e tudo entrou na normalidade. Naveguei até o final do dia com tudo funcionando bem. Apenas pequenos tombos, 3 para ser exato e pequenos erros de kilometragem do navegador, faltava calibrá-lo. Num destes erros, já no final da prova, errei uma referência a alguns kilômetros da chegada e saí numa rodovia a alguns metros do final. Olhei o morro que teria que voltar e desisti, quase 11 horas de prova, com todos aqueles contratempos, me considerava no lucro. Pena! Perdi uma chegada cinematográfica na Rodoviaria de Mariana e, de quebra, mais um PC e mais 1800 pontos. É a vida!!
      Fomos para o Hotel. Uma edificação antiga, cara dos anos 70, muito confortável e muitos pilotos no hotel. Havia tanta gente da prova que parecia o circo da fórmula 1, misturado com um mercado Persa. A muvuca era geral, os quartos abertos, pilotos desmaiados nos quartos, caras com as pernas raladas, muito barro em todos os andares. Na andar térreo, várias motos desmontadas, muitos mecânicos de apoio trabalhando em harmonia, trocando peças e ferramentas. Naquele momento havia um clima mágico, todos cansados, 80% da prova realizada, muitas amizades feitas em meio às dificuldades encontradas e uma interação muito grande em todos. Almoçamos (às 19:00 h) no próprio hotel. Apesar do cansaço físico, nos permitimos umas cervejinhas, pois havia a certeza de que já havia valido a pena ter vindo. Já estávamos recompensados pelas dificuldades transpostas para andar no Independência: os gastos; que não são poucos, a saudade da família, os receios que acompanham uma prova como esta, tudo, tudo estava quite a partir daquele momento. O que viesse, daqui para frente, seria lucro, pensei. Errei!!!
      O dia comecou bem, olhei a classificação do dia anterior, o mais difícil e fiquei em 33o. lugar, mesmo perdendo aqueles últimos 1800 pontos. Nada mal. Fomos verificar a ordem de largada e cade? Ninguem achava. falamos com um cara da organizaçao e ele disse que era só calcular o número do jaleco vezes os 15 segundos de intervalo de cada piloto. Calculei no meu TOTEM, conferi com a besta que me dera a informaçao. Bateu legal. Partimos para Ouro Preto, ainda paramos para tirar fotos na praca principal. Chegamos na boca da trilha e algo estranho ocorria. Nem uma alma viva. Nem uma moto, somente eu e o Celso. Iniciei a prova navagando bem, meu navagador funcionando beleza. Zerando tudo! Bom demais para ser verdade. Um PC comentou: "Ocê tá atrasado, heim amigo!". Como atrasado, tô zerando !, respondi, embora por dentro sabia que alguém estava errado e não era o PC. Torci o cabo e tentei recuperar o tempo perdido. Devia estar uns 40 minutos atrasados. Impossível recuperar a prova. Passei a milhão pelos lugares. Estava atrás até dos limpa-trilha (pessoal que retira as motos quebradas da prova). Recuperei uns 15 minutos. Cheguei no Neutro e a cara do meu apoio confirmava a situação. Fiquei nervoso, xinguei muito e aí uma frase do Jair me trouxe à realidade: "Cara, pense que faltam apenas 40 km para vc terminar o
Independência, faça destes últimos Kms uma coisa agradável, aproveite, ande rápido, mas não pense mais em pontuação. Aproveite a trilha." Sabias palavras.
      Desencanei, andei forte. Alguns kms à frente encontrei o barulho de motos e o cheiro de óleo 2T. Como podia ser ? Encontrei o rabo da fila de moto tão rapido! Alegria passageira. Era um enrosco monumental. Mais de 50 motos paradas numa trilha fechada e íngreme. Enquanto alguns desistiam, eu subia. Cada metro que subia, percebia que minha embreagem estava mais falha, hora mais alta, hora mais baixa. Cheguei no topo. Vista linda. Um vale muito verde. Um ventinho bom e... cadê a embreagem ? Tentei regular, sem sucesso. Soltei o cabo no último, peguei uma raspinha e desci a montanha em direção à BR-040. No caminho encontrei um sujeito, de cara simpática que havia jantado com a gente, parado na trilha, cara de esgotado, cansado, acabado. Ele falou-me: "Amigo, por favor, me guincha até a BR ?" Por favor. Eu quase sem embreagem, não consegui dizer não. Amarrei a moto dele na minha e arrastei uns 200 metros até proximo ao final da trilha. Foi a socialização da desgraça. Acabou totalmente a minha embreagem e podia dizer adeus a intenção de chegar andando ao Palanque do Independência. Chamei meu apoio pelo celular e empurrei a moto até a BR. Enquanto esperava o apoio chegar, tomei 2 cervejas num boteco, onde faziam um churrasco pela vitória de um campeonato de Futebol. Integrei-me ao grupo, comi uma picanha muito boa e dei muitas risadas. O povo mineiro é mesmo muito hospitaleiro. Meus calcanhares sangravam de tanto empurrar a moto, mas nao sentia nada.
      Pus a moto na carreta, levei-a próxima ao palanque e empurrei-a palanque acima. Peguei minha medalha de participacao. Acabava ali a minha participacao no Independencia.
      Hoje, alguns dias e banhos depois, ainda encontro vestígios das Gerais. É uma poeirinha aqui, outra ali...

(Este texto foi enviado pelo piloto Claudinei José da Silva, que participou do Enduro da Independência 2001 e quis compartilhar suas aventuras conosco. Parabéns Claudinei !!!)

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