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Saí na
quarta feira à tarde e a noite já estava em Paraty-RJ. Arranjei
um hotelzinho e fui fazer os procedimentos de inspeção na moto e
pegar o material com a Organizaçao do Evento. À noite teve a
largada promocional, na qual aceleramos as 500 motos juntas e
passseamos pelas bonitas ruas de Paraty. Foi emocionante sentir a
adrenalina, o barulho ensurdecedor, a energia da galera
toda... No outro dia, logo cedo,
partimos para o primeiro dia de prova, com trajeto: Paraty-
Cunha-Aparecida do Norte-Itajubá-São Lourenço. Logo de início, dois
acidentes espetaculares: Num deles, a 200 mts da largada, o piloto
acelerou demais e a roda traseira pensou ser a dianteira e bateu no
barranco numa curva. Saiu de ambulância... acabava ali, logo no
início, a aventura deste colega. No outro, uma equipe de reportagem,
num Palio, dirigido pela reporter, capotou o carro em Plena Serra de
Cunha. O carro parou a 1 metro de um penhasco. Os passageiros
saíram lentamente para o carro não
despencar, coisa de cinema. Em
termos de prova, para mim, não aconteceu nada espetacular.
Atravessamos rios, muita mata em Cunha, muitos morros e areia em
Aparecida e trilhas em Itajubá. Deslocamo-nos até São Lourenco de
carro. À noite, enquanto os mecânicos de apoio faziam a
manutenção da moto, corri as ruas da cidade experimentando a famosa
cachaça de Minas. Muito boa mesmo. Tomei um de banana que era
fenomenal. Segundo dia comecou com
estresse, havíamos deixado alguns ajustes para o dia seguinte,
demoramos um pouco para sair e quase chegamos atrasados. Verifiquei
a minha colocação do dia anterior: 52. Achei estranho pois tinha
certeza de ter andado bem; descobri que tomei uma penalização de
1800 pontos em algum lugar da prova, por perder um PC. Erro básico!
Não adianta chorar ! Bom, agora a Ines é morta e vamos para frente. Saí
e, desta vez, tomando mais cuidado com os PCs. Andei o dia inteiro
por belas cidadezinhas de Minas, muita poeira, muitos buracos, mata
burros e, em cada lugar, uma festa para a nossa chegada. As praças
cheias, as crianças acenando, etc... Fazíamos pequenas paradas
nestas cidades para abastecer a moto, tomar Gatorade e comer uma
fruta (devo ficar um mês sem ver uma bebida isotonica). A vida dos
meus apoios tambem não era fácil, tinham que levar gasolina para mim
e para o outro piloto e, após cada relargada, tinham que voar
para a outra cidade e chegar antes de nós.
Enquanto íamos pelas trilhas, eles iam pelas estradas. Neste dia
ocorreram alguns contratempos que acabaram afetando o ânimo da
equipe: Como as paradas eram muito rápidas (15 a 20 minutos),
tínhamos que trabalhar como um Pit Stop de Fórmula um. Em um destes,
nos atrapalhamos e acabamos saindo atrasados (eu e o Celso) e
perdemos pontos valiosos. Final do
segundo dia: a certeza de que a prova era mais dura do que previmos
! Chegada em Sao
João del Rey à noitinha, a cidade tomada pelos turistas, e cadê
vaga nos Hoteis ? O que fazer ? Difícil foi convencer a dona do
Motel que nós, 4 rapazes, todos sujos de graxa e poeira, não éramos
"rapazes alegres", e sim competidores do Independência e muito
machos. Pegamos dois quartos de Motel e transformamos uma das
garagem em oficina. Imaginem só a cara das pessoas que entravam no
motel e deparavam com esta cena insólita. Motos desmontadas, peças
para tudo quanto era lado, barulho de ferramentas. Para piorar a
situação, avariei a roda traseira da moto (amassou e quebrou o
rolamento, havíamos levado um reserva, mas estava errado, que falta
de sorte!), quebrou tambem o meu "roll book" e o Celso, o outro
piloto, machucou o ombro numa queda espetacular (caiu num "mata
burro", doravante chamado por nós de "aleija burro"), sorte não
haver "mata corno" no trajeto, senão não chegava quase ninguém !
Andamos à noite na cidade atrás do representante do Rool Book
(Cebola). Ele, muito solicito e cansado, montou as engrenagens do
meu equipamento entre uma pestanejada e outra. 23:00 hs, Rool book
funcionando. Quase não acreditei ! Mas como nem tudo é perfeito, não
tive a mesma sorte com o rolamento da roda, tivemos que montá-la com
o mesmo rolamento avariado e seguir em frente. Mais do que a roda, o
moral da equipe estava avariada. Vários erros no dia, desde os
atrasos até as peças erradas. Fizemos uma reunião na garagem do
Motel entre os gemidos dos quartos vizinhos. Discutimos os pontos
falhos do dia, definimos alguns procedimentos básicos para os
próximos dias: Piloto teria que, primeiro, ajudar nos Pit Stops e só
depois se alimentar. Além disto, definimos que cada um dos apoios
deveria fixar-se em uma moto e concentrar-se somente naquele
serviço. Os serviços deveriam ser distribuidos previamente e
harmoniosamente de forma a agilizar a atuação dos nossos apoios.
Outra coisa que marcou bastante foi um a situação ocorrida no mesmo
dia, nal qual um outro piloto pediu uma ferramenta emprestada e
havíamos parado o serviço para atende-lo, ou seja, estavamos
trabalhando errado !! Terceiro dia,
sabíamos que seria o dia mais longo (aprox 11 h de corrida), o
cansaço começando a falar mais alto. Verifiquei a classificação do
dia anterior: 48 lugar. Um dos putos dos PCs não havia marcado a
minha passagem, sabia até qual foi. Um com cara de sonso que estava
de cabeca baixa. Saímos de São João del Rey, rumo à Mariana,
passando por valetões de erosões e muito barro na saída da cidade.
Na parte superior das valetas ficavam centenas de pessoas da
cidade, acompanhando o flagelo dos enduristas. Não sei porque
lembrei-me do filme "Gladiadores" !!! Quem caía, enroscava ou
"roiava" (roiar é um verbo mineiro usado quando alguém trava a
trilha e vem do substantivo "rolha, da para acreditar?), tomava uma
sonora vaia de incentivo... incentivo a abandonar a prova e voltar
para casa. A molecada era a mais satânica, xingavam, zombavam e
davam gargalhadas com a desgraça dos outros. "Como são puras estas
criancas", pensei. Só faltavam jogar pedras nos infelizes que
encontarvam alguma dificuldade. Por sorte, subi
entre barro e as pedras, arrancando pedaços do barranco e mandando
pedra para tudo quanto é lado. Atravessei muitas trilhas, rios,
morros e equivalentes. Estava andando bem, tudo correndo normal -
até então não havia tido nem um único tombinho na competição! -
Quando, de repente, a roda dianteira travou e senti o sabor da terra
das Gerais. Não entedi nada! Cair num barranquinho "normal" de 2
metros, naquela altura da prova, era muito estranho. Fui verificar a
moto e descobri o problema: o cabo do navegador enroscou no cabo do
freio e travou o disco de freio. Retirei o cabo e o freio
voltou ao normal, mas havia acabado de perder o Navegador em pleno
sertão, sem uma única alma viva (nem mesmo um calango para me fazer
companhia). Que fazer ? A única solução era mochilar alguém, ou
seja, acompanhar outro corredor e torcer para que ele estivesse
navegando corretamente. Enquanto devaneava, passou um piloto com uma
KTM a uns 100 Km/h, liguei a moto o mais rápido possivel e corri
atrás dele. Me guiava pela poeira que ele deixava. De repende,
perdi-o de vista. Parei, desliguei a moto e ouvi de onde vinha o
barulho. Segui-o novamente. Andei uns 20 minutos na cola dele e
deparamo-nos com uma montanha enorme constituida de um material
estranho. Formações rochosas escuras, pontiagudas e muito, muito
lisas. A altura da montanha desanimava, muito alta e íngreme. Pensei
ser mais adequada para alpinistas do que para motociclistas. KTM na
frente eu atrás, KTM para a direita e eu para a direita, KTM para a
esquerda e eu para esquerda, KTM escorregando e caindo morro
abaixo... (tomou um tombo fantástico ao subir o morro do sabão -
nome que eu dei) Não pensei 2 vezes, verifiquei se o piloto estava
bem, acelerei tudo o que podia e fui subindo, metro a metro, pedra a
pedra até chegar ao cume da montanha; pareceu uma eternidade.
Chegando lá, mais perto do céu, fui acomedido de sentimentos
confusos. Eentia-me feliz por ter conseguido subir, preocupado por
ter que descer e triste por ter que deixar aquele lugar maravilhoso,
com uma vista maravilhosa do vale de cores e texturas nunca por mim
vistas e por não saber quando teria outra oportunidade de revê-la.
Tomei um grande gole de ar, outro de água, acelerei fundo e desci em
direção a uma trilha donde viam marcas de pneus. Encontrei outras
motos e continuei mochilando mais uns 40 minutos. Foi uma
experiência interessante pois, como estava impossibilitado de
navegar, podia me concentrar em acompanhar as motos à minha
frente e observar melhor a paisagem ao meu redor, coisa que
dificilmente fazemos quando estamos navegando. Cheguei no
Neutro e meu querido apoio estava lá me aguardando. Equipe porreta!
Falei-lhes do problema e eles rapidamente se posicionaram em arrumar
a moto. Em alguns segundos estava nas mãos do Gil um sensor reserva.
Testamos o sensor, nada feito. Alguns segundos depois surgia um
TOTEM (navegador) completo nas maos do Jair, pronto para entrar em
ação. Testamos o primeiro TOTEM novamente e funcionou, faltavam 5
minutos para a relargada. 4 minutos o Gil montando o sensor, 3
minutos, o Gil fixando o sensor e o Jair colocando a planilha do
trecho seguinte, 2 minutos, apertando tudo, 1 minuto, tudo
funcionando! Saí correndo, tentando me localizar na planilha, passei
por outra moto em movimento olhei no navagador e li trecho 152,
digitei o número no meu navegador e tudo entrou na normalidade.
Naveguei até o final do dia com tudo funcionando bem. Apenas
pequenos tombos, 3 para ser exato e pequenos erros de kilometragem
do navegador, faltava calibrá-lo. Num destes erros, já no final da
prova, errei uma referência a alguns kilômetros da chegada e saí
numa rodovia a alguns metros do final. Olhei o morro que teria que
voltar e desisti, quase 11 horas de prova, com todos aqueles
contratempos, me considerava no lucro. Pena! Perdi uma chegada
cinematográfica na Rodoviaria de Mariana e, de quebra, mais um
PC e mais 1800 pontos. É a vida!! Fomos para o
Hotel. Uma edificação antiga, cara dos anos 70, muito confortável e
muitos pilotos no hotel. Havia tanta gente da prova que parecia o
circo da fórmula 1, misturado com um mercado Persa. A muvuca era
geral, os quartos abertos, pilotos desmaiados nos quartos, caras com
as pernas raladas, muito barro em todos os andares. Na andar térreo,
várias motos desmontadas, muitos mecânicos de apoio trabalhando em
harmonia, trocando peças e ferramentas. Naquele momento havia um
clima mágico, todos cansados, 80% da prova realizada, muitas
amizades feitas em meio às dificuldades encontradas e uma interação
muito grande em todos. Almoçamos (às 19:00 h) no próprio hotel.
Apesar do cansaço físico, nos permitimos umas cervejinhas, pois
havia a certeza de que já havia valido a pena ter vindo. Já
estávamos recompensados pelas dificuldades transpostas para andar no
Independência: os gastos; que não são poucos, a saudade da família,
os receios que acompanham uma prova como esta, tudo, tudo estava
quite a partir daquele momento. O que viesse, daqui para frente,
seria lucro, pensei.
Errei!!! O dia comecou
bem, olhei a classificação do dia anterior, o mais difícil e fiquei
em 33o. lugar, mesmo perdendo aqueles últimos 1800 pontos. Nada mal.
Fomos verificar a ordem de largada e cade? Ninguem achava. falamos
com um cara da organizaçao e ele disse que era só calcular o número
do jaleco vezes os 15 segundos de intervalo de cada piloto. Calculei
no meu TOTEM, conferi com a besta que me dera a informaçao. Bateu
legal. Partimos para Ouro Preto, ainda paramos para tirar fotos na
praca principal. Chegamos na boca da trilha e algo estranho ocorria.
Nem uma alma viva. Nem uma moto, somente eu e o Celso. Iniciei a
prova navagando bem, meu navagador funcionando beleza. Zerando tudo!
Bom demais para ser verdade. Um PC comentou: "Ocê tá atrasado, heim
amigo!". Como atrasado, tô zerando !, respondi, embora por dentro
sabia que alguém estava errado e não era o PC. Torci o cabo e tentei
recuperar o tempo perdido. Devia estar uns 40 minutos atrasados.
Impossível recuperar a prova. Passei a milhão pelos lugares. Estava
atrás até dos limpa-trilha (pessoal que retira as motos quebradas da
prova). Recuperei uns 15 minutos. Cheguei no Neutro e a cara do meu
apoio confirmava a situação. Fiquei nervoso, xinguei muito e aí uma
frase do Jair me trouxe à realidade: "Cara, pense que faltam apenas 40 km
para vc terminar o Independência, faça destes últimos Kms uma
coisa agradável, aproveite, ande rápido, mas não pense mais em pontuação. Aproveite a
trilha." Sabias palavras. Desencanei,
andei forte. Alguns kms à frente encontrei o barulho de motos e
o cheiro de óleo 2T. Como podia ser ? Encontrei o rabo da fila de
moto tão rapido! Alegria passageira. Era um enrosco monumental. Mais
de 50 motos paradas numa trilha fechada e íngreme. Enquanto alguns
desistiam, eu subia. Cada metro que subia, percebia que minha
embreagem estava mais falha, hora mais alta, hora mais baixa.
Cheguei no topo. Vista linda. Um vale muito verde. Um ventinho bom
e... cadê a embreagem ? Tentei regular, sem sucesso. Soltei o cabo
no último, peguei uma raspinha e desci a montanha em direção à
BR-040. No caminho encontrei um sujeito, de cara simpática que havia
jantado com a gente, parado na trilha, cara de esgotado, cansado,
acabado. Ele falou-me: "Amigo, por favor, me guincha até a BR ?" Por
favor. Eu quase sem embreagem, não consegui dizer não. Amarrei a
moto dele na minha e arrastei uns 200 metros até proximo ao final da
trilha. Foi a socialização da desgraça. Acabou totalmente a minha
embreagem e podia dizer adeus a intenção de chegar andando ao
Palanque do Independência. Chamei meu apoio pelo celular e empurrei
a moto até a BR. Enquanto esperava o apoio chegar, tomei 2 cervejas
num boteco, onde faziam um churrasco pela vitória de um campeonato
de Futebol. Integrei-me ao grupo, comi uma picanha muito boa e dei
muitas risadas. O povo mineiro é mesmo muito hospitaleiro. Meus
calcanhares sangravam de tanto empurrar a moto, mas nao
sentia nada. Pus a
moto na carreta, levei-a próxima ao palanque e
empurrei-a palanque acima. Peguei minha medalha de
participacao. Acabava ali a minha participacao no Independencia. Hoje, alguns
dias e banhos depois, ainda encontro vestígios das Gerais. É uma
poeirinha aqui, outra ali...
(Este texto foi enviado pelo
piloto Claudinei José da Silva, que participou do Enduro da
Independência 2001 e quis compartilhar suas aventuras conosco.
Parabéns Claudinei !!!)
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